tóquio

Há quase dois meses, embarquei para uma experiência que definitivamente mudaria minha vida: ser voluntária nas Olimpíadas de Inverno da Coréia do Sul. Já que estava por aqui mesmo, resolvi estender até o Japão. A gente tem mania de achar que os países asiáticos são todos iguais e esse é um grande engano: existem várias semelhanças, claro, mas viver a realidade de cada um deles me fez perceber quão diferentes e ricas são suas culturas.

 

Tóquio: arquitetura e design

A questão da moradia e uso dos espaços em Tóquio é muito curiosa, e a relação que se cria com arquitetura e design se torna muito interessante. O Japão tem uma formação de montanhas em 80% de seu território, ou seja, toda a população está distribuída nos outros 20%. Muito por conta disso, vim pra cá com a expectativa de que todos os espaços seriam super reduzidos e claustrofóbicos e, para minha feliz surpresa, me enganei.

Não, os espaços não são enormes, mas os japoneses dão aula no quesito otimização. Os ambientes são bem aproveitados e o design muito avançado, e o resultado dessa combinação é a criação de lugares extremamente funcionais e confortáveis. Tudo é pensado de maneira prática, casando qualidade e conforto — valores fundamentais para o lugar que escolhemos morar.

Isso me faz pensar muito no contexto de acolhimento que nossas casas nos proporcionam. O local onde habitamos, comemos e vivemos é um local onde se cria afeto, e é importante pensar na forma como construímos e nos relacionamos com esse ambiente.

Aqui, o lugar onde você mora não precisa ser o maior apartamento do mundo, pelo contrário, precisa conter o essencial para o seu bem-estar. O simples é agradável e refinado. Como tudo precisa funcionar muito bem, é preciso planejar cada detalhe — posicionamento dos objetos, disposição de cômodos e dos móveis. Isso não é nenhum incômodo quando se faz com qualidade: a residência se torna de fato mais aconchegante e nós, seres humanos, adoramos essa sensação de aconchego, de aproximação, de espaços que provocam a interação.

 

Uma cultura em volta do coletivo

Outro ponto que me chamou atenção foi o senso de coletividade que predomina entre toda a população. Todas as iniciativas parecem ser pensadas, em primeiro lugar, para o bem coletivo. As pessoas cuidam das ruas, dos patrimônios, da natureza. Posso caminhar por horas sem encontrar sequer uma lixeira, mas também não vejo lixo na rua, e isso não tem a ver com escassez ou abundância, mas sim com o mindset da população e a forma como lidam com as esferas do público e do privado, da coletividade e do individualismo.

Até mesmo ir ao banheiro é uma experiência interessante. Em Tóquio, é bastante comum os banheiros de prédios serem compartilhados na área externa e isso não é nenhum tipo de transtorno: as privadas esquentam para não sentirmos frio, descargas são automáticas, torneiras ligam sozinhas para não esquecermos de lavar a mão. Tudo é planejado para que a ordem seja mantida e todos sejam beneficiados. Pensa-se muito no bem-estar de cada um e isso traz um impacto muito positivo para o coletivo.

Estamos falando de um país onde aproximadamente 90% da população têm as mesmas condições sociais, por isso o senso de coletividade é tão forte: as demandas dos cidadãos são parecidas.

Percebo também que os japoneses têm muito cuidado e zelo com os objetos, não por uma questão de status ou materialidade, mas sim por uma relação espiritual e poética que se cria. Todo esse cuidado com a construção dos espaços me comprovou o quanto onde e como vivemos refletem na forma como enxergamos o mundo ao redor. Aqui, eu tenho mais consciência sobre meu corpo, meus movimentos, meu consumo.

Essa conscientização corporal pode ser percebida em eventos como a Cerimônia do Chá, atividade tradicional da cultura nipônica onde os convidados são cordialmente servidos com chás. Cada movimento é gentilmente executado e os conceitos que norteiam a cerimônia são o respeito, a harmonia, a pureza e a tranquilidade. Esses quatro valores, segundo uma das cerimonialistas, só podem ser atingidos quando todo mundo no ambiente se encontra feliz.

Sinto que temos muito o que aprender com o Japão, especialmente no que diz respeito ao aproveitamento e zelo dos espaços e às relações de conexão que criamos com os lugares e as pessoas. Aqui, eu de fato me relaciono com a arquitetura, as coisas não passam despercebidas, já que eu preciso pensar muito bem em qual movimento vou fazer, qual espaço vou ocupar e de que forma vou organizar minhas coisas. Enquanto viajante, me tornei uma pessoamais atenta e consciente. O aprendizado é infinito.